Mas o que dizer dos momentos mais importantes que vivemos? Ora, desses a gente se lembra com clareza, porque são passagens que ficam indelevelmente gravadas em nossa memória. Esse é o caso do meu relacionamento cercado de amor e carinho por Alcoólicos Anônimos, irmandade a qual tive a honra de ter ajudado a engatinhar e dar os primeiros passos em Mato Grosso, ainda no século passado, nos anos 1970. Trabalhava como assessora jurídica na Secretaria de Segurança Pública do estado e, certo dia, fui à sala do Dr. Miguel Biancardini, defensor público, meu amigo, que me apresentou a um promotor de Justiça recentemente chegado de São Paulo. Até então nada sabia dele, mas passei a conhecê-lo melhor, vindo a admirá-lo por sua coragem e pelo modo especial como tratava as pessoas.

Ao ouvir o Dr. Miguel lembrar-me de uma palestra que eu faria sobre espírito comunitário, o promotor nos interrompeu,
dizendo que queria participar. Miguel e eu ficamos momentaneamente sem saber o que dizer, até ele esclarecer que queria falar sobre Alcoólicos Anônimos tema então desconhecido da maioria da população brasileira. Miguel pediu mais detalhes, e o promotor surpreendeu-nos mais uma vez, apresentando-se como alcoólico que desejava falar para outros alcoólicos, com a intenção de abrir um grupo de A.A. em Cuiabá (MT). Logo percebi tratar-se de alguém de muita firmeza.

Pedi licença e saí da sala, mas creio que aquele promotor sentiu que eu podia somar esforços ao seu propósito. Dr. Miguel disse-lhe que eu me dedicava a causas sociais e, no dia seguinte, após a palestra, ele pediu-me ajuda para divulgar A.A. na cidade. Disse-lhe que conhecia o Dr. José Guilherme Esmela Curvo, assim como o Dr. Waldemir Olavarria, ambos psiquiatras acostumados a lidar com alcoólicos. Ele pediu-me que ligasse para o Dr. José Guilherme, colocando-os em contato. Fomos juntos à casa do médico, que convidou o promotor para visitar o hospital.

Lá estava internado H.M., que veio a ser um dos AAs pioneiros em Cuiabá: rapidamente entendeu a mensagem, passando a falar sobre o programa que tanto beneficia o doente alcoólico. Aquele foi um começo promissor, pois logo apareceram outros internos que também aderiram ao programa de recuperação de A.A., tornando-se sóbrios.

Hoje, decorridos quase 50 anos do surgimento da Irmandade em Mato Grosso, constato que o sucesso de A.A. se deveu a um conjunto de esforços, com participação de muita gente. Houve boa vontade do Dr. Miguel, Dr. Guilherme e Dr. Waldemir Olavarria; contamos com a competência e cooperação do jornalista Eugênio de Carvalho e dos meios de comunicação da cidade, além da participação valorosa de Ana M., esposa de E.T., o promotor.

Após E.T. falar de si mesmo e apresentar A.A. como solução para quem quisesse parar de beber, pessoas se animaram e começaram a participar das reuniões. O movimento cresceu a olhos vistos, levando os pioneiros a se movimentarem para conseguir uma sede onde pudessem realizar reuniões.

Certo dia, ao ver cheia a sala do grupo no Jardim de Infância Santa Maria, na Rua Feliciano Galdino, conhecida como Travessa do Limoeiro, fiquei deslumbrada. Ali entendi o alcance do programa, como estávamos conseguindo atrair mais e mais pessoas para a caminhada da sobriedade.

A vinda de Ana M. é um capítulo à parte. Mulher forte, tudo superou: foi a primeira pessoa que deu a mão ao marido quando
o encontrou bêbado numa rua de São Paulo; foi quem o levou pela primeira vez a um grupo de A.A. Eu não a conhecia, mas desde que se uniu a nós, percebi a importância que tem uma pessoa com espiritualidade, boa vontade e disposição para dar tudo de si em favor do movimento. Ao meu ver, pessoas como Ana deveriam ter o reconhecimento de todos que se beneficiaram e se beneficiam direta ou indiretamente de A.A.

E.T. faleceu recentemente, com mais de 50 anos de sobriedade contínua. Para mim, foi sempre exemplo para alcoólicos e não alcoólicos, devido à sua generosidade em ajudar seres humanos. Nesses quase 50 anos de A.A. em Mato Grosso, mantive contato com a irmandade sempre que pude. Mas a emoção que senti ao passar em frente ao Grupo Cuiabá, atualmente com sede próxima à minha casa, foi indescritível. Parei na porta e puxei conversa com alguns membros que aguardavam a reunião. Ninguém me reconheceu, porque tinham ingressado há poucos anos. Mas tudo mudou quando apareceu S. Ele me conhecia, sabia da minha íntima ligação com os grupos locais de A.A. Abraçou-me, disse que eu era madrinha de todos e chorou, deixando o ambiente carregado de emoção. À noite, voltei para participar da reunião, sendo saudada pelos que me conheciam e também pelos mais novos, muitos dos quais nunca tinham ouvido falar de mim.

Hoje tenho 83 anos e costumo dizer que minha vida não passou em branco porque tive oportunidade de ajudar pessoas. De maneira simples, creio que consegui ser útil de algum modo. Ver A.A. vigoroso, sendo frequentado por grande número de pessoas me deixa feliz, muito feliz.

Gosto de participar das reuniões. Considero grandioso esse programa de recuperação, responsável pelo resgate de tanta gente. Sempre que penso em minha história, reconheço que o essencial não é fazer o bom, mas sim fazer sempre o melhor. E acredito que, assim como tive iniciativa para fazer meu melhor, os membros de A.A. também buscam fazer o melhor para todos.

Autora: Drª Leila Francisca de Souza é advogada e Amiga de A.A.
Fonte: Revista Vivência, edição 203, páginas 46, 47 e 48.