NUM MOMENTO DE MEDITAÇÃO, ELA VIVENCIOU A JORNADA COMPLETA DE RECUPERAÇÃO OFERECIDA PELOS DOZE PASSOS.
Sou uma alcoólica que não bebe somente pela Graça de Deus, como o entendo, e pela prática do programa de A.A. em todas as minhas atividades. Considero-me também adicta e neurótica, mas, com os Doze Passos, venho me equilibrando emocional e espiritualmente.
Estou sóbria há dois anos e um mês. Vejo progresso em minha recuperação porque, desde o início da pandemia de Covid-19, aumentei minha participação em reuniões à distância, absorvendo a literatura de A.A. mais ativamente e servindo: faço abordagens, acolhimento, amadrinhamento e coordenação de reuniões, ou seja, dou a outros o que graciosamente me tem sido dado.
No meio dessa jornada, fortalecida pela escuta de companheiros de diversos grupos nas reuniões virtuais, escrevi meu Quarto Passo e fiz meu Quinto Passo. Foi libertador. Além disso, aproveitei os momentos de confinamento social para tornar diária a prática da oração e meditação.
Foi num momento de meditação que tive uma experiência espiritual, da qual me lembro detalhadamente, e que gostaria de compartilhar com vocês: estou imobilizada, em frente a um túnel escuro. Meus pés pisam um terreno escorregadio, tento andar, mas caio, machucando-me várias vezes. Minha alma dói. Estou só e com medo. Vejo livros destruídos pelo
chão; papeis, certidões rasgadas e animais peçonhentos me rodeiam. Ofegante e cansada, tento mexer-me… Carrego uma mala pesada nas mãos, mas insisto em não soltá-la. Derrotada, abatida, vejo um pequeno foco de luz distante, no fim do túnel. Apesar do receio, sinto necessidade de entrar ali, de percorrer aquele caminho desconhecido (Primeiro Passo). De repente, encontro-me de joelhos (Segundo Passo) e, como mágica, uma lanterna é colocada em minha mão (Terceiro Passo). Com o auxílio da lanterna, já enxergo melhor o caminho e avanço sem medo. Tudo ao redor vai clareando. Uma das luzes que parecia estar distante aproxima-se e envolve-me amorosamente (apadrinhamento). Sinto que faço parte de algo, finalmente.
Esse ser espiritual, que vejo como meu igual, sugere que eu veja o meu passado (Quarto Passo). Conto-lhe minha história e, assim, abro minha mala pesada e mostro o que há nela: pesos agora desnecessários (Quinto Passo). Tiro dela tudo que é inútil. O que realmente pesava eram meus defeitos e minhas imperfeições (Sexto Passo). Comprometo-me a colocar virtudes nos espaços vazios (Sétimo Passo). Ao me lembrar do passado, tomo consciência de que prejudiquei pessoas com meu comportamento insano e inadequado (Oitavo Passo). Posso agora confrontar-me diante delas e pedir perdão, fazendo as devidas reparações (Nono Passo).
Sinto-me confortável com isso. Sigo com o que é leve. Sou guiada pelas mãos de um Poder Superior, Deus, como O concebo. Aceito, entrego, confio e agradeço por essa luz em meu túnel. Enquanto caminho, todo o percurso vai sendo iluminado (despertares espirituais). A essa altura já sei que não devo estacionar nem correr. Sinto gratidão e compaixão, coisas novas para mim até então. Agora, tenho lucidez suficiente para uma autoanálise diária (Décimo Passo). Agradeço e silencio minha mente, pois agora estou conectada fortemente a um Poder Superior (Décimo Primeiro Passo). Falo com Ele (oração) e Ele fala comigo (meditação). A luz da lanterna intensifica-se quando me conecto a outras pessoas no túnel agora cheio de luz (companheiros e companheiras).
Pertenço a esse lugar sagrado para mim, que sempre esteve aberto, esperando que eu entrasse. Lembro-me de que preciso fazer com outras pessoas sob a escuridão o mesmo que fizeram comigo, compartilhando a luz, iluminando outros túneis, para que outros enxerguem a caminhada feliz.
Vigio e cuido desse caminho que hoje vejo como o túnel da minha recuperação, enquanto acendo outras lanternas (Décimo Segundo Passo), que, pela sabedoria e simplicidade do programa de A.A., torna meu mundo iluminado.
Vislumbrei essa jornada de recuperação numa simples meditação. Não sei quanto tempo essa experiência durou. Não sei se foi um sonho. Minha única certeza é que me sinto privilegiada por essa experiência. Hoje tenho o que me parecia impossível: uma vida digna, saudável, plena e feliz, um dia de cada vez.
Aurora: Vera, Área 40-SPS.
Fonte: Revista Vivência, edição 203, páginas 40, 41 e 42.
